3 de outubro de 2018 0 comentários

ZIRALDO, A CRIANÇA QUE AINDA BRINCA De Aldo Tavares Faz 16 anos que levei minha filha ao Ziembinski para assistir a uma peça escrita por Ziraldo, “Bonequinha de pano”, cuja protagonista encontra-se esquecida no sótão de uma casa, até que uma menina a encontra. Trago este livro aqui para lembrar que a inteligência sensível de Ziraldo é aquela que sempre escreveu a palavra criança em seu devido lugar de criança; e, quando digo devido lugar, digo conceitos que pertencem à natureza de criança. Um desses conceitos, este: brincar. Neste ano, a Boitatá, selo da Boitempo, publicou “O capital para crianças”, onde conceitos inerentes ao mundo infantil ausentaram-se, posto que a proposta de suas páginas é registrar a infância no materialismo histórico, por isso a criança diz ao vovô Marx: “Conte uma história pra gente, por favor! mas nada de cavaleiros e princesas, nem de reis e dragões, nem cinderela, nem chapeuzinho. queremos uma história de verdade”. O marxismo infantil escreve a palavra criança sobre linhas retas e sérias. Também escrevendo sobre linhas retas e sérias, o mercado editorial neopentecostal publica literatura infantil para que a criança aprenda a se conduzir com retidão por meio de narrativas bíblicas. Tal qual o marxismo para criança, a inocência na literatura infantil neopentecostal deve ouvir a verdade não do vovô Marx, mas a verdade da vovó Igreja. Exposto isso, podemos afirmar que marxismo e religião se abraçam ou igualam-se, visto que as duas literaturas infantis “limpam” a criança das narrativas falsas com a linguagem asséptica da verdade, a mesma verdade com que Platão disciplina a criança em A República e em As Leis, qual seja, verdade que, separando-se das diferenças, fixa valores absolutos. Essa verdade jamais se distancia da ideia de real, por isso que as literaturas infantis marxista e religiosa têm cunho realista. Evidente que, por causa de princípios democráticos, essas literaturas devem e precisam existir, mesmo porque, se não existissem, não seriam criticadas aqui; e a crítica, sem os apelos de ideologias e de emoções religiosas, é o exercício de uma razão que busca com equilíbrio qualificar ideias, nesse caso, a ideia de criança, que é a ideia de brincar. Em “O capital para criança”, porém, a inocência não brinca, o que não ocorre em “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo, “onde tudo que é bom é brincadeira”. A criança não busca a verdade. Ela busca brincar. Se a verdade se separa das diferenças a fim de fixar valores absolutos, a fim de se dizer pura, a criança brinca, pois brincar, que mistura, alegra: o Menino Maluquinho “deitava/ e rolava/ pintava e bordava/ e se empanturrava/ de bolo e cocada/ E ria/ com a boca cheia/ e dormia/ cansado no colo da vovó/ suspirando de alegria”. Mas a criança que pede ao vovô Marx contar a verdade é criança que não sabe brincar; o marxismo para criança, que não reconhece o ato de brincar como natural à infância, também não pode reconhecer um conceito inerente ao brincar, a saber, ele: que proporciona à inocência alegria, qual seja, o falso. Brincar é experimentar o falso; e, ao experimentá-lo, a criança é afetada pelo excesso. Pais que assistiram com seus filhos à peça “Bonequinha de pano” possibilitaram às crianças o acesso ao brincar, desde que admitamos a relação estreita entre o brincar e o irreal ou entre o brincar e o falso. Uma criança que se fantasia, por exemplo, de boneca Emília brinca de Emília e, ao mesmo tempo, falseia os limites do real. Por causa da ficção do falso, da fantasia, a criança se alegra, visto que o falso oferta ao infante um certo grau de expansão. Na literatura de Ziraldo, a inocência se alegra. “Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original! Se aprendemos a nos alegrar melhor, melhor desaprendemos de causar dor nos outros e planejar dores”, escreveu Nietzsche em Assim falou Zaratustra. As literaturas infantis marxista e religiosa, assim como a fábula nobre de Platão, são ficções verdadeiras que representam a moral reta a que a criança deve ser submetida, bem diferente do brincar desobediente e alegre do Menino Maluquinho, cujo comportamento escolar recebe dos professores ZERO. Quando eu soube que Ziraldo encontrava-se no hospital por causa de um AVC, perdi por alguns segundos a respiração em um mundo que tinha acabado de ficar ainda mais desencantado. A verdade tinha me asfixiado. Eu quis, porém, acreditar que a criança de 85 anos, na verdade, brincou de partir para sempre. Melhor assim: brincar, fingir, falsear.

Vida

17 de novembro de 2011 1 comentários



Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amada,
mas também já fui rejeitada,
fui amada e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é "muito" para ser insignificante.

Augusto Branco

Adaptado

Na expectativa

13 de outubro de 2011 0 comentários

até lá eu perco todas as unhas.